Miolo #2: aberta chamada pública

Data de publicação: 18 de fev de 2019

 

Chamada pública para submissão de textos da revista Miolo, número 2, de 2019.

Leia atentamente à chamada abaixo antes de enviar seu texto e efetuar sua inscrição.
Prazo limite para submissão: 3 de junho de 2019
Link para o formulário de inscrição: https://bit.ly/2DSt1HR

 

 

ARTE, DESIGN E ARTESANATO: UM CORPO PARTILHADO

No início do século XX, Walter Gropius publicou o manifesto que inaugurou o pensamento da Bauhaus, escola ícone das artes, do design e da arquitetura. Diante de um processo de industrialização ainda recente, acreditava-se que arquitetos, escultores e pintores deveriam retornar a um fazer manual, pois a proficiência em um ofício seria essencial para a arte — e neste tipo de fazer residiria a fonte primária da imaginação criativa. Ao propor uma amálgama entre arte e artesanato, Gropius termina por sugerir uma reorganização político-social pautada por uma aproximação nos “modos de fazer”: uma partilha na qual artesãos e artistas poderiam tomar parte do corpo comum de forma mais equilibrada.

Cem anos se passaram, o artesanal sucumbiu à velocidade do fazer mecânico, que por sua vez foi perdendo espaço para as poéticas digitais: vivemos, hoje, em uma época na qual os paradigmas se sobrepõem e a criatividade é espremida entre quantidades enormes de informações — imagens — e os curtos prazos impostos por processos produtivos cada vez mais velozes. Contudo, sabemos que, por vezes, o retorno aos saberes artesanais ainda está no cerne de algumas estratégias que visam tornar mais lenta, e humana, a velocidade contemporânea de produção e consumo.

No Brasil da década de 1970, o designer pernambucano Aloísio Magalhães já alertava sobre a necessidade de rever o conceito de desenvolvimento socioeconômico e as relações entre os países periféricos e os de “economia centralizadora” no campo do desenho industrial. Para ele, em nosso país, a atividade artística projetual interdisciplinar do design deveria deixar de lado a busca por soluções de problemas produto/usuário em uma sociedade de consumo, e assumir a responsabilidade ética de atuar na tentativa de diminuir as diferenças entre as áreas com grande concentração de riquezas e as regiões mais pobres do nosso país.

E de fato, ao sul dos trópicos, por volta da década de 1950, ocorreu uma partilha do comum extremamente violenta, oriunda de uma abrupta ruptura marcada por um processo de industrialização importado do hemisfério norte do planeta. Um processo, segundo Lina Bo Bardi (1994), que invisibilizou os corpos dos artífices locais, impedindo-os de fazer parte da produção e compartilhamento de bens de consumo compatíveis com a pseudorrevolução industrial que aconteceu do lado de cá neste período.

Como consequência deste processo artistas/designers/artífices da periferia, conscientes dos impactos de suas atividades na sociedade, se viram diante da necessidade de desvencilhar-se da visão simplista e limitadora das soluções imediatistas voltadas à criação de novos bens de consumo. Dada a injusta distribuição de recursos amplificada por um processo equivocado de “industrialização” nacional, estes profissionais foram forçados a ampliar seus repertórios e suas “formas de fazer”, de modo a serem capazes de propor tanto soluções para contextos primitivos e pré-industriais, quanto para situações que envolviam níveis mais sofisticados de tecnologia.

Neste cenário, nos interessa conhecer os caminhos traçados pelas tentativas de suprimir a arte enquanto atividade separada do restante do corpo social. O que se fez na busca por devolvê-la ao universo do trabalho? Como ela se insere/foi inserida no cotidiano sensível da comunidade?

Com o tema “UM CORPO PARTILHADO”, o segundo número da revista MIOLO quer se aprofundar nas relações entre o que se vê e o que se diz, entre o que se faz e o que se pode fazer politicamente no campo das artes, do design, dos fazeres artesanais: temos o desejo de conhecer novas estratégias de diálogos que permitam uma reconfiguração das relações entre pessoas, cidade, trabalho, produção e consumo. Uma discussão sobre como as experiências estéticas podem interferir na partilha do sensível contemporânea; como elas criam deslocamentos e rupturas em um corpo comum recheado por diferentes corpos.

Convidamo-os, então, a enviar textos — artigos, matérias, ensaios, trabalhos artísticos — que versem e dialoguem com as seguintes linhas temáticas:

 

FURAR A BOLHA

Como partilhar perspectivas?

Como dialogar com as diferenças?  

 

FORMAR PÚBLICO

Como tornar conteúdos acessíveis para diferentes grupos?

Como trocar experiências?

 

PRODUZIR E DISTRIBUIR

Como criar redes colaborativas?

Como produzir além do convencional de maneira alternativa?

E as outras formas de fazer?

 

 

O prazo para a entrega dos trabalhos é 3 de junho, e todos os textos e imagens serão lidos e avaliados cuidadosamente pelo nosso conselho editorial, que divulgará a lista com os trabalhos aprovados em data a ser confirmada.

Os textos devem vir no seguinte padrão: fonte times new roman ou arial, tamanho 12, espaçamento 1.5, justificado e ter entre 7.000 e 10.000 caracteres. As imagens devem vir em alta resolução, 300 dpi, no mínimo de 10×15 cm. Incrições através do formulário:  https://bit.ly/2DSt1HR.

O lançamento da revista ocorrerá em outubro, no Congresso UFBA.

 

Para mais informações, enviar e-mail para: miolorevista@gmail.com

 

REFERÊNCIAS

MAGALHÃES, Aloísio. O que o desenho industrial pode fazer pelo Brasil. ARCOS DESIGN, Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p.9-12. 1998.

BARDI, Lina Bo. TEMPOS DE GROSSURA: o Design no Impasse. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1994.

GROPIUS, Walter. O MANIFESTO DA BAUHAUS DE 1919. 1919. Disponível em: <https://www.goethe.de/ins/br/pt/kul/fok/bau/21394277.html>. Acesso em: 13 fev. 2019

MELO, Chico Homem de; RAMOS, Elaine. LINHA DO TEMPO DO DESIGN GRÁFICO NO BRASIL. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

RANCIÈRE. J.  A PARTILHA DO SENSÍVEL: estética e política. São Paulo: Editora 34, 2009.

 

 

 

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